Disparidade salarial expõe desigualdade de gênero nas empresas automotivas

O retrato da desigualdade entre os gêneros no setor automotivo é facilmente notado pela baixa representatividade de mulheres no quadro funcional e na liderança das empresas do setor. O problema, no entanto, se estende também a outros aspectos, como o tempo de carreira, a remuneração salarial e a retenção pós-maternidade, de acordo com o estudo inédito Diversidade no Setor Automotivo, feito com 89 empresas do segmento entre agosto e setembro de 2019.

Realizado por Automotive Business, em parceria com MHD Consultoria, a pesquisa aponta que atualmente as mulheres representam 19,7% da força de trabalho do setor – porcentual bastante inferior ao da participação feminina na população brasileira, que é de 51%, segundo o IBGE. O número mostra retração em relação a 2017, quando elas representavam 21% do quadro de colaboradores.

A queda no percentual pode ter sido impulsionada pela retomada do setor automotivo que, depois de redução do quadro de colaboradores, voltou a contratar – provavelmente admitindo um volume maior de homens.

MULHERES ESTÃO FORA DOS CARGOS DE DECISÃO DE EMPRESAS AUTOMOTIVAS

A participação de homens e mulheres nas empresas automotivas desenha um funil hierárquico: começa equilibrada nos cargos de entrada, com participação feminina e masculina em cargos de entrada, mas apresenta grandes desigualdades nas posições mais elevadas. A participação feminina em nível de estagiário ou trainee é de 45%, ante a 55% de homens. No quadro funcional, a presença delas cai para 18%.

Nas lideranças, elas representam 21% em cargos que equivalem a gerência, diretoria, vice-presidência e presidência. Entre 2017 e 2019 houve evolução discreta nessa participação, de três pontos percentuais, apesar do número total de mulheres contratadas no setor ter diminuído no período.

A maior parte da força de trabalho feminina está concentrada nas áreas de produção e manufatura (47%), marketing e vendas (11%) e compras, supply chain e logística (7%). Com isso, apesar do discreto avanço, fica claro que a mulher estar longe de ter participação relevante nas posições mais estratégicas, responsáveis por, de fato, desenhar o setor automotivo.

O funil hierárquico indica que, a partir das posições de gerência, há uma quebra na participação feminina, provavelmente pela dificuldade de ascender profissionalmente. A dificuldade para ascender profissionalmente passa longe de ser falta de competência ou preparo das mulheres: elas são bem mais escolarizadas do que os homens do setor.

Enquanto só 27% dos talentos masculinos empregados no setor têm nível superior e/ou pós-graduação completos, 41% das mulheres têm formação equivalente.


DESIGUALDADE SALARIAL PERSISTE

A desigualdade entre os gêneros também se estende a outro aspecto de alta relevância: a remuneração. De acordo com o estudo, ainda que as mulheres sejam mais escolarizadas que os homens, o salário médio delas é 23% inferior nas empresas automotivas.

Este desequilíbrio se aprofunda em cargos de liderança, onde elas chegam a ganhar 34% a menos do que eles. Outro dado significativo é que apenas 38% das empresas têm ações para reduzir desigualdades salariais entre homens e mulheres.

ELAS SAEM MAIS CEDO DO SETOR

Pela análise etária dos homens e mulheres empregados no setor automotivo, o estudo indica que pode haver um movimento de desistência feminina das empresas do segmento conforme a idade delas avança ou, ainda, um avanço das demissões. Entre os profissionais de 31 a 50 anos, mulheres representam uma parcela menor: são 54% ante aos 64% de homens, indício de que elas saem mais cedo do meio automotivo.

Os homens com filhos também são a maioria: 46% são pais, enquanto apenas 36% das mulheres são mães. De acordo com o estudo, metade das empresas participantes afirma que conseguem manter mais de 75% das colaboradoras após a licença maternidade, embora apenas 22% das empresas afirmem adotar medidas concretas para a retenção das colaboradoras.

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