Uma visão de 20 anos sobre a mulher no mercado de trabalho



Há 21 anos, quando meu filho nasceu, decidi deixar a carreira numa grande empresa e empreender. É curioso notar que, lá atrás, o que me fez buscar esta mudança foi um desafio que continua incomodar outras tantas mulheres até hoje, duas décadas depois: conciliar maternidade, vida pessoal e carreira. E olha que, no meu caso, contava com plena participação do meu marido na divisão das tarefas caseiras – algo não tão comum nos lares brasileiros.

Ainda assim, equilibrar os pratos era complicado. Queria acompanhar o crescimento do meu menino de perto. Experimentava calafrios só pela possibilidade de um dia achar que terceirizei a educação dele, de sentir no peito o peso daquele pensamento: “não vi meu filho crescer”.

ABRIR MÃO VIDA DE EXECUTIVA PARA CRIAR UM NOVO CAMINHO

Lá atrás eu desbravei um terreno importante na Mangels, um grupo com vocação industrial no setor automotivo, com atuação em áreas predominantemente masculinas. Fui executiva de Marketing da unidade de rodas esportivas. Apesar de a companhia dispor de excelentes benefícios e do meu desempenho ser reconhecido e premiado internamente, não foi possível conciliar o sonho da carreira e da maternidade.

Na época em que engravidei ainda não se falava em jornada flexível. O home office, hoje praticado por várias empresas, era algo muito novo, desconhecido.

Neste contexto, optei por empreender. Duas décadas se passaram e a MHD Consultoria, empresa que fundei um ano após o nascimento do meu filho, consolidou-se, e, ao lado de um importante cliente do setor de veículos pesados, conquistou o TOP de Marketing.

USAR A MINHA EXPERIÊNCIA PARA INCENTIVAR OUTRAS MULHERES

Ao longo desta jornada, uma série de outros projetos garantiu sucesso e visibilidade ao meu negócio. Mas o que me motivou a escrever este texto contando parte da minha história foi perceber que depois de construir uma alternativa para minha vida profissional como mulher, tenho a chance de usar a minha experiência para ajudar outras empresas e profissionais a desenhar um ambiente de trabalho mais justo para o sexo feminino.

Nos últimos anos acompanhei o nascimento da Rede Mulher Empreendedora, idealizada por Ana Fontes, primeira rede voltada ao fomento do empreendedorismo entre mulheres, onde atuo como mentora. Estou envolvida hoje em outro projeto incrível, a B2Mamy, aceleradora criada por Dani Junco para apoiar empresas lideradas por mulheres mães atuo como coordenadora metodológica do Programa Pulse.

Mais recentemente tive a honra de ser convidada para mais um desafio relacionado à vida profissional das mulheres: o projeto Presença Feminina no Setor Automotivo, estudo inédito que vai mapear a participação da mulher nesta indústria tão masculina, que é responsável por 25% do PIB industrial do Brasil. A iniciativa é da editora Automotive Business, a mais relevante publicação B2B do segmento, voltada ao alto escalão das empresas que integram a cadeia produtiva, liderada por outra mulher inspiradora, Paula Braga. Meu olhar passa a revisitar com mais detalhes a indústria automotiva em que trabalhei lá atrás. A vida tem voltas interessantes.

EQUIDADE DE GÊNERO GANHA RELEVÂNCIA

Histórias como a minha seguem se repetindo, mas agora tenho a oportunidade de contribuir para que as mulheres tenham mais alternativas do que eu tive, para que sejam devidamente valorizadas. O contexto é favorável a esta mudança: a equidade de gênero alcança enfim relevância. A ONU dedica um dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ação global para pessoas e para o planeta) para alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.

Acabo de ler (e sugiro que você leia) a entrevista de Giovanna Cirosi, Recruiter Senior da Microsoft, ao site Movimento Mulher 360 (MM360). Na conversa a profissional relata como a empresa apoiou seu retorno da licença maternidade, a amamentação de seu bebê e proporcionou o trabalho remoto. O desafio é que, infelizmente, essa não é a realidade do mercado de trabalho.

A pesquisa Presença Feminina no Setor Automotivo carrega uma visão propositiva. O objetivo é mapear a atuação da mulher na cadeia produtiva desta importante indústria e identificar as boas práticas já adotadas, além de propor soluções e indicar caminhos para os desafios existentes. Queremos inspirar e contribuir para as áreas de recursos humanos em suas políticas de retenção de talentos e equidade de gênero.

E sobre o desenrolar da minha história pessoal, meu filho está com 21 anos, independente e feliz, engajado com nossa família. Tenho orgulho de dizer que curti muito todas as fases de seu desenvolvimento, embora também no mundo do empreendedorismo haja diferenças de oportunidades para homens e mulheres. Mas isso é assunto para outro artigo.

*Tânia Macriani é sócia-diretora da MHD Consultoria Empresarial, Graduada em Marketing – ESPM e mestre em Empreendedorismo pela Faccamp.


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